segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Lista de livros para o primeiro semestre de 2016


Atualmente estou lendo O andarilho das sombras, Stardust: o mistério da estrela e O espadachim de carvão. Em 2016, terão como possibilidades de leitura (100%) os seguintes livros não lidos de 2015:






E a lista criada especificamente para 2016 é:



Sonho Febril - George R. R. Martin
Republica de ladroes - Scott Lynch
O Temor Do Sábio  - Patrick Rothfuss
O Homem Pintado - Peter V. Brett
O gigante enterrado - Kazuo Ishiguro
O Corvo - Edgar Allan Poe
O Aprendiz De Assassino - Robin Hobb
Jonathan Strange e Mr. Norrell - Susanna Clarke
Belas Maldicoes - Neil Gaiman
Admiravel Mundo Novo - Aldous Huxley



sábado, 26 de dezembro de 2015

Impressões: Contos para ler na fila de espera


Para concluir meu desafio no goodreads, selecionei contos bem curtinhos para comentar, me aproveitando da assinatura do serviço Kindle Unlimited. Com exceção do conto do Eduardo Kasse, todos são minicontos que podem ser lidos numa fila de espera de supermercado.



Quatro Heróis e um Bardo contra a Realidade Medieval, de Rodrigo Assis Mesquita, é conto de comédia muito bem humorado e cheio de tiradas anacrônicas que zomba da nossa sociedade com classe, sem perder o charme medieval imposto pelo cenário. Quem gosta de humor nonsense, estilo adult swim, vai gostar (a história poderia ser facilmente adaptada para um esquete deste show).




O último sol poente, de Eduardo Kasse, segue a linha de apresentação dos imortais vampíricos, neste caso se tratando de um japonês. O primeiro terço do conto foi bastante confuso, por ser muito puxado para ação e apresentar personagens com nomes japoneses de difícil memorização. Transposta esta primeira parte, a narrativa segue mais calma e é possível assimilar melhor quem é quem e seus papéis na trama, de forma que a narrativa se torna belíssima ao final, e a escrita mantém o padrão de qualidade que eu esperava; especialmente nas descrições. A forma do autor trabalhar o sensorial é de uma técnica apuradíssima, sinal de grande talento e trabalho duro.



Parceiros no crime, conto de Ana Lúcia Merege, me deixou à vontade com sua escrita, da qual sou fã e já me sinto familiarizado. A trama expõe um conhecimento profundo em mitologia grega - cujas principais histórias conheço superficialmente - e uma pesquisa sobre lugares e costumes gregos para contar uma história de amor à primeira vista com bastante aventura e mistério. Como sempre, os nomes estrangeiros me atrapalharam no começo (para se ter uma ideia do modo como são tratadas as referências gregas, até Hércules se manteve Héracles, numa citação), mas logo fui me acostumando. Recomendo a todos que curtem a mitologia grega.



Estrela cadente, de Lívia Stocco, é um conto rápido, simples, engraçado e muito bem montado. As características psicológicas são o ponto alto desta narrativa em primeira pessoa, e cativa sem muito esforço. A linguagem é coloquial e o enfoque descontraído garante fluidez e concisão às ideias. Muito bom!



Os anjos não conhecem o céu, conto de Bruno Eleres, me causou uma indiferença extrema. Passado um dia da leitura, eu quis escrever este comentário sobre e não consegui. Simplesmente não lembrava de nada do conto. A escrita não possui defeitos evidentes, é a falta de voz e o enredo "pasteurizado" que tornam a leitura completamente desinteressante. Não costumo dar notas, mas esse é 3/5. Não fede nem cheira.





A ladra que roubava ladrões, de Laís Manfrini, apresenta um conceito interessante, mas a escrita contém alguns maneirismos prejudiciais à leitura; especialmente nas descrições, que se esmiúçam de maneira artificial. O enredo abrange muita coisa para as poucas páginas, e a impressão que fica é a de pressa desmedida, e os personagens são vagos e sem muita importância, apesar de conter um charme peculiar nas suas estranhezas.






O ouro da montanha, de Camila M. Guerra, possui uma escrita rica, opulenta, sufocante. O rebuscamento das frases é agradável pelo estilo, mas é feito sem medida; os adjetivos transbordam em alguns parágrafos, e o que deveria formar a imagem, acaba dificultando o processo de leitura. O enredo é belíssimo, as cenas bem montadas e texto, como um todo, é carregado de poesia. Recomendo!







quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Impressões: Limbo, de Thiago d'Evecque


Para encerrar as resenhas de 2015 (será?), mais uma história de autor nacional.



O Limbo é para onde todas as almas vão após a morte. Além de humanos, deuses esquecidos e espíritos lendários também vagam pelo plano. Muitas almas sabem exatamente onde estão e por que; a maioria, entretanto, ainda tem a impressão de estar viva. A morte é um hábito difícil de se acostumar. 
Um dos espíritos residentes no Limbo acorda sem nenhuma lembrança de sua identidade. Ele descobre que a Terra está prestes a ser destruída pelos próprios humanos e fica encarregado de enviar doze almas heroicas de volta. Elas reencarnarão no plano dos homens e tentarão reverter o quadro apocalíptico. 
Contudo, poucas almas encaram o retorno com bons olhos. O espírito deve, então, forçá-las. Armado, de preferência. Assim, resolve visitar um velho amigo: Azazel, anjo ferreiro e primeiro escolhido da lista. 
O espírito descobre mais sobre quem realmente é, ouve uma versão completamente diferente sobre a rebelião dos anjos e é presenteado com uma surpresa de péssimo gosto. 
LIMBO mistura elementos e referências de videogames, RPGs, HQs, animes, mangás, filmes, séries e livros. De Lovecraft a Final Fantasy, é uma homenagem às influências que marcaram o autor. 


Comecei a leitura bastante empolgado por conta da quantidade de elogios que Limbo possui nas páginas de avaliação, e logo no começo pude notar que não eram infundados. Em sua primeira publicação, Thiago d'Evecque assombra com sua qualidade de escrita, deixando aos entusiastas da literatura nacional de fantasia, um nome para se guardar. A escrita é bela e poética, abusando de figuras de linguagem e garantindo uma fluidez uniforme no texto. As descrições são diretamente afetadas por isso, e o livro apresenta boas representações de visual de personagens, e em certa medida de cenário também, apesar do limbo, enquanto atmosfera macro da história, acabe prevalecendo e poluindo os cenários com seu vazio escuro.

A narrativa foi a parte problemática da leitura. A sinopse é bastante sincera sobre a história do livro; percebemos pelo menos uma dúzia de referências das mais variadas, num universo de sincretismo que, (muito) ironicamente, só exclui o deus judaico-cristão da existência. A jornada é uma espécie de "12 trabalhos de Hércules", mas que se repetem exaustivamente e sucessivamente, deixando o ritmo de leitura bem prejudicado. Como se Hércules, ao invés de 12 tarefas, precisasse cumprir apenas 2, e repeti-las 6 vezes em alternância. Se dá assim: a alma imagina uma figura heroica, se materializa na moradia da mesma (que, novamente, se permeia com as brumas e aspecto do limbo), descreve tal herói e começa uma conversa com ele, explicando a situação do mundo e a necessidade do seu retorno. E, de acordo com o caso, o herói aceita sua missão de bom grado ou pela força. Pronto. São essas as 2 possibilidades que se vê durante todo o livro.



"Corte logo a cabeça deste miserável!
Eu podia. Podia mesmo. Simplesmente girar Cacá de lado e cortar o pescoço de Tabadiku em um corte limpo e preciso. Mas gosto de dar uma chance para entenderem o que está havendo com eles e com o mundo".

O trecho acima, da segunda metade do livro, demonstra que o autor conhece bem a estrutura repetitiva do enredo, e mesmo assim a usou, deliberadamente. O leitor precisa enfrentar tal obstáculo e virar as páginas para encontrar o inimigo que, numa estranha alusão ao modelo "DBZ e demais animes", é sempre mais desafiador que o anterior, ao menos os que se mostram contra o pedido de voltar ao mundo dos humanos (e não, eles não são mais desafiadores que o anterior, é a alma que está sempre mais fraca por causa dos ferimentos recebidos, o que também exige uma boa dose de suspensão de descrença, afinal ser atravessado por uma espada, por exemplo, não é um referencial válido numa escala de cansaço/sofrimento). As disputas físicas se aproveitam do talento de escrita, mas ainda caem no enfado estrutural em que se situam. Limbo é um livro cheio de qualidades, mas também de defeitos evidentes.

O que gostei:
- A escrita é muito bem trabalhada. Algo único e que precisa ser elogiado sempre.
- O número de referências é mais que suficiente para evocar simpatia de qualquer tipo de leitor.
- Há notas de todas as referências utilizadas, no final do livro.

O que não gostei:
- A narrativa é muito repetitiva.
- Personagens, apesar de diferentes, em essência significam a mesma coisa.
- A escolha de alguns personagens contradiz a escolha de outros. Se a ideia original é dar um novo rumo para a humanidade, a alma acabou dando um leque de opções bem caótico para a humanidade seguir.
- O pior defeito de todos, na minha opinião, é a utilização exagerada de frases de efeito e lições de moral, as duas coisas que mais abomino na escrita, e que me pareceram um desperdício de talento. Destaco, no entanto, que TODAS as marcações populares do Kindle são justamente algumas dessas frases de efeito.

Considerações finais:
Thiago d'Evecque presenteia o leitor com uma escrita incrível permeada de bom humor. Limbo, para mim, é um bom presságio e acrescentou mais um nome à minha lista de autores notáveis. Espero que daqui para frente a boa escrita largue o fanservice e ofereça algo original; FanFic é coisa de autor amador, e d'Evecque se provou capaz de ir além disso.






terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Impressões: Contos de Dezembro/2015


Hoje venho trazer mais impressões sobre contos fantásticos escritos por autores brasileiros. Todos foram adquiridos na loja Kindle da Amazon.



O conto Um herói para Daniel me decepcionou. Já conhecia o trabalho da autora pelas histórias fantasiosas de Bhardo, publicadas de maneira independente na Amazon, e ela se tornou um nome constante nas minhas listas de recomendações de fantasia nacional, mas neste conto ela não acertou a mão. A escrita fica confusa muitas vezes por conta de frases mal elaboradas, tem mais erros de digitação do que se pode notar e deixar passar, e a própria estrutura do enredo é mal trabalhada. A história é bonita - fala sobre bullying e amadurecimento - e quase se salva por ser destinada ao público infantil, mas não convence. Elementos narrativos rígidos e apresentados sem qualquer introdução se unem a personagens rasos (Daniel e o bully se excluem) para formar uma história sem apelo e bastante amadora.



Lobo de rua é a primeira publicação de Jana P. Bianchi e sua estréia não poderia ser melhor. A novela surpreende pela habilidade na escrita, sendo impactante no roteiro e rica nas descrições, o que é percebido na ambientação da cidade de São Paulo - mas não só nela, sentimentos são facilmente evocados nas descrições pessoais e das situações narradas. A fantasia urbana não tem grande complexidade de enredo, mas essa falta abre espaço para o belíssimo trabalho de desenvolvimento de personagem; esse aspecto me levou à impressão de estar lendo um drama, muito mais que uma fantasia. A história de Tito e Raul funciona como um prólogo muito bem montado, mas também se encaixaria tranquilamente como um apêndice para o que, eu imagino, virá da Galeria Creta, pois Lobo de rua possui começo, meio e fim. Com ressalva a três ou quatro exageros que acabaram tirando efeito em suas frases, a qualidade da escrita é impecável, garantindo mais uma autora para minha lista de favoritos. Fervorosamente recomendado!




Por último, Ao som de uma canção de amor você sangrava. Nesse conto de Eduardo Kasse acompanhamos Diodoros, um vampiro grego hedonista e narcisista num diálogo de um lado só. Ele conversa com o personagem/leitor (por isso o "você" no título, muito sagaz!) e conta sua transformação em vampiro. A linguagem é de fácil assimilação, mas é evidente que não se construiu sem esforço, pelo requinte de vocabulário e detalhes apresentados; o trabalho de pesquisa do autor é quase palpável. As cenas, bem conduzidas, formam um enredo enxuto, agradável e com ares poéticos de grande impacto. Um conto incrível!





sábado, 5 de dezembro de 2015

Impressões: A ilha dos ossos, de Ana Lúcia Merege


Mais um pouco e terei lido 100% do que ela publicou. O livro do post é sequência direta de O Castelo das Águias e é o segundo da série Athelgard de Ana Lúcia Merege. Vamos à sinopse e minhas impressões.



Após ter derrotado seu maior rival, o mago Kieran de Scyllix deseja apenas deixar para trás seu passado de guerras e segredos e ser feliz ao lado de Anna. No entanto, a sede da jovem Mestra de Sagas por conhecimento e aventura nem sempre torna as coisas fáceis para o casal.
Durante uma viagem para encontrar uma confraria de bardos, ela desaparece misteriosamente, e Kieran é obrigado a seguir suas pistas através dos pântanos e mares de Athelgard. Pelo caminho ele irá encontrar aliados improváveis – barqueiros, religiosos e uma trupe de saltimbancos – e enfrentará piratas e guerreiros, além de se deparar com seres que até então só vira em antigos livros de Magia. E a maior surpresa de todas o aguarda no destino final...
A Ilha dos Ossos, romance fantástico de Ana Lúcia Merege, é o segundo da série iniciada por O Castelo das Águias (2011) no mundo de Athelgard. Inspirado nas lendas celtas e com grande sensibilidade artística, a autora cria personagens que habitam esse mundo que parece vindo de contos de fadas, mas nem sempre com finais felizes.

A sinopse é honesta, então não há necessidade de explanar o mote do livro, mas há um aspecto geral que é preciso citar, em contraponto ao primeiro livro: a locução muda de Anna para Kieran, e as diferenças de narração são enormes de um livro para o outro. É importante que isso fique bem claro antes da leitura a seguir, pois muito do que observei na minha análise está atrelado à percepção do narrador.

O enredo é muito mais tradicional ao que se vê no gênero fantasia, e a busca de Kieran é facilmente associada a uma aventura, no sentido de ter elementos de mistério, ação e progressão bem evidentes; a história perde o ar de "slice of life" do primeiro livro. A progressão, aliás, merece um reforço no elogio, pois é feito um encadeamento tão coeso de cenas que é impossível se perder na narrativa, a própria organização (e nomes) dos capítulos já dá a ideia de que a aventura segue sem deixar nada perdido para trás. A visão prática do mundo que Kieran possui afeta narração tanto positiva quanto negativamente, e um exemplo do primeiro caso pode ser visto neste trecho:

"Naquela noite, ceei numa mesa comum, com viajantes provenientes de Erchedel e de Malkin. Esta era conhecida como “cidade do pântano”, por isso procurei saber se os homens fariam o mesmo trajeto que eu, mas foram veementes em dizer que preferiam ir por terra, ainda que isso lhe custasse um desvio de vários dias. O pântano era assombrado, afirmaram, principalmente nas proximidades do mar interior. Só os barqueiros da Aldeia dos Juncos tinham coragem de atravessá-lo".

Conciso e útil. Em um parágrafo a autora sintetizou informações suficientes para o leitor saber do local que se apresentava e qual seria o próximo passo de Kieran: buscar os barqueiros da Aldeia dos Juncos. E tudo isso se encaixando com o perfil do personagem! Esse é um exemplo de qualidade na escrita!

A parte negativa da visão de Kieran se revela nos trechos de descrição, que na verdade não são tão diferentes em suas construções dos demais textos da autora, mas espero conseguir demonstrar meu ponto de vista com duas passagens:

"Os muros do templo eram de pedra e bem sólidos, mas seus portões eram de madeira: tábuas grosseiras e carcomidas, reforçadas com barras de ferro e fechadas com trancas por dentro. No pátio havia apenas um edifício em pedra, possivelmente o alojamento dos Prestes, já que os ritos em honra de Thonarr são realizados a céu aberto. As outras construções eram de adobe, à exceção de um cercado de madeira com meia dúzia de cabras".

A descrição acima é boa, funcional e traz o relevo necessário nas palavras utilizadas para formar uma imagem concreta do que se quer passar. Não há mais o que fornecer para o leitor. No geral as descrições são boas, porém há alguns casos em que a pressa de Kieran toma conta do texto, e surgem coisas assim:

"(...) eu estava coberto de lama, e os mosquitos me picavam sem dó. Pensei em desistir da exploração e retornar, mas depois pensei que uma praia tão longa merecia ser examinada e caminhei um pouco mais, tomando cuidado para não pisar em nenhuma outra armadilha do pântano".

A primeira frase revela o estado físico dele. Em seguida, uma oração esgota o que há para se dizer da situação psicológica do personagem e já se emenda com o retorno ao cenário e a segunda frase é concluída com a ação decorrida no ambiente. Que loucura, que brevidade, o leitor precisa de mais! Estou errado em atrelar o erro da pressa à figura do narrador, já que no exemplo anterior a descrição é eficaz? Talvez, mas pessoalmente eu consigo ver a mesma situação narrada por Anna de Bryke, consequentemente com duas ou três frases a mais, aliviando a rapidez da narrativa só com a sua voz.

Em relação aos personagens, eles são muitos e novamente inéditos, porém não sofri com a memorização dos mesmos, justamente pela progressão da história, que separa muito bem as cenas (e os personagens que nelas atuam), sem que seja necessário assimilar dezenas de uma vez só, que somem e reaparecem no mesmo lugar, como era a convivência no Castelo das Águias e seus arredores. Os núcleos são bem definidos e se mantêm verossímeis no ambiente em que se apresentam. Na parte de construção psicológica, apenas em um momento senti um toque de caricatura, quando uma família inteira de fazendeiros é estereotipada como "vilanesca" e unidimensional, porém eles surgem no capítulo chamado "Um ninho de serpentes", então eu posso estar sendo injusto, querendo um desenvolvimento em quem realmente não deveria haver.

A ressalva maior que faço enquanto à diversão do livro, que é abundante desde o começo, é no final, após o clímax e antes do encerramento. Simplesmente demora demais. Talvez pela necessidade de um final feliz pleno, temos que passar por uma segunda fase do clímax, em que não só os vilões principais reaparecem, mas também outros de índole ruim surgem para o acerto de contas absoluto! E acaba? Não, há também a terceira fase do clímax, que existe para fazer ligação com um dos contos da autora que também se ambienta na Ilha dos Ossos. Só depois de tudo isso a trama baixa o frenesi e retoma o passo para a finalização do enredo, que é feito trazendo mais novidades e um gancho para mais coisa que virá no terceiro livro da saga. 

O que gostei
- Personagens incríveis, numerosos e bem construídos.
- A aventura e o enredo geral é muito bom.
- A progressão é o ponto mais alto da história, o que garante um excelente ritmo, apesar da quebra entre o clímax e o desfecho.
- O mundo de Athelgard cria mais vida com os tantos locais apresentados, o universo ganhou muito com este livro.


O que não gostei
- Os Behzov e sua função na trama.

Considerações finais
A ilha dos ossos é um livro excelente, com um ritmo que precisa ser estudado por outros brasileiros que gostam de escrever e, em suma, mostrou que Ana Lúcia Merege continua trazendo literatura de qualidade para seu público, sem precisar fazer malabarismos no universo fantástico que ela criou. O livro, em última instância, nos ensina porque Kieran precisava embarcar nesta viagem incerta em busca de sua esposa. Nas palavras dele: "Porque era ela que me fazia desejar ser bom, mais do que apenas justo."




sábado, 21 de novembro de 2015

Lista de livros resenhados

Último adicionado: Coisas frágeis

Para procurar um título específico, tecle CTRL+F e digite o nome do autor. Isso agiliza a busca por livros com títulos traduzidos

A –
Alameda dos pesadelos, de Karen Alvares
Ana Lúcia Merege 1 e 2
O andarilho das sombras, de Eduardo Kasse

B –
A batalha de Agerta, de Lívia Stocco
Bukowskianos, de Murillo Magaroti
A bússola de ouro, de Philip Pullman

C –
O caso de Chalers Dexter Ward, de H. P. Lovecraft
O castelo das águias, de Ana Lúcia Merege
Cidadão 8.5.1, de Rob Stalisz
Cirilo S. Lemos
Coisas frágeis 1, de Neil Gaiman
CONTOS DIVERSOS 1 2 3

D –
Deuses esquecidos, de Eduardo Kasse
Os doze guardiões da luz, de Luiz Henrique Batista
O dragão de gelo, de George R. R. Martin

E –
O espadachim de carvão, de Affonso Solano
Eric Novello
Extraordinário, de R. J. Palacio

F –
A faca sutil, de Philip Pullman
Frankenstein, de Mary Shelley

G –
Gabriel, de Claudio Parreira
Garota exemplar, de Gillian Flynn
Guardians volume 2, de Luciane Rangel
Guerra Justa, de Carlos Orsi
Guerra nos nove mundos, de Jacó Galtran

H –
Um homem superior, de Machado de Assis
Horror em gotas, de Karen Alvares
Horror na colina de Darrington, de M. V. Barcelos

I –
A idade do sangue, de Ju Costa
O idiota, de Fiódor Dostoiévski
A ilha dos ossos, de Ana Lucia Merege
Mistborn - O império final, de Brandon Sanderson

J –
A jornada de um herdeiro - A adaga de dois gumes, de Vanessa Nilo

K –

L –
A lenda de Ruff Ghanor: O garoto-cabra, de Leonel Caldela
A Liga dos Artesãos, de Lauro Kociuba
Limbo, de Thiago d'Evecque
A luneta âmbar, de Philip Pullman

M –
Menina bonita bordada de entropia, de Cirilo S. Lemos
Misery - Angústia, de Stephen King
O mistério da estrela - Stardust, de Neil Gaiman

N –
O nevoeiro, de Stephen King

O –
Os objetos supremos, de Lívia Stocco
O oceano no fim do caminho, de Neil Gaiman 
Olhos de dragão, coração de fênix, de Márcia Albuq

P –
O processo, de Franz Kafka

Q –

R –
Revista Trasgo 1 2 3 4
A revolução dos bichos, de George Orwell

S –
A senhoria, de Roald Dahl
Sentimentos à flor da pele
Silo, de Hugh Howey


T –
O Tesouro de Caularom, de Lívia Stocco
A trilogia Dupin, de Edgar Allan Poe

U –
Os últimos casos de Miss Marple, de Agatha Christe
Unncharted: o quarto labirinto, de Christopher Golden

V –

W –

X –

Y –

Z –





Abandonei: A lenda de Ruff Ghanor: O garoto-cabra, de Leonel Caldela





Estou largando a leitura no quarto capítulo; realmente me decepcionei, pois o saldo das resenhas na amazon, loja onde comprei o ebook, é extremamente positivo. Mas comecei mais decepcionado do que fiquei quando cheguei no quarto capítulo. O prólogo "O devorador de mundos" é horroroso, parece escrito por amador (pode ser lido gratuitamente na página da amazon, online) e quasse larguei ali mesmo. Dei uma segunda chance e continuei para ver uma melhora gigantesca no texto do primeiro capítulo, mas continuei achando erros graves na escrita.
Gostei muito do cenário, porém o vocabulário me incomodou demais. Não é pobre, pelo contrário, há palavras utilizadas no texto que não são de uso comum, entretanto faltou exatidão no uso das mesmas. Para exemplificar, este é um trecho de finalização da apresentação de uma caverna sombria, de importância ímpar e cuja entrada é vista como um tabu pela população local:


"A montanha ficava atrás do mosteiro, e os clérigos quase nunca tinham razão para se aventurar por lá"

O verbo aventurar-se tirou o sentido que vinha sendo construído, mas o que estragou com tudo mesmo foi dizer que os clérigos QUASE NUNCA TINHAM RAZÃO PARA IR LÁ. A escolha errada de palavras acabou com a coerência do que tinha sido dito.
Abaixo, dois exemplos em que o autor trata o leitor como criança, e digo isso em tom de crítica porque sei que o livro não foi escrito para o público infantil:

"Não sabemos de onde veio, apenas que os deuses, ou o santo, colocaram-no em nosso caminho com um propósito específico. Mas, fosse qual fosse sua vida antes do incidente no túnel, você parece um menino que nunca teve uma família antes. Agora tem, está cercado de pessoas que o amam, e então apareço eu e jogo toda uma nova família sobre você. É demais, não?"

"Naquela época, havia um rei, e por isso as pessoas podiam viver a vida em paz. Podiam planejar, ter filhos, esperar pelo dia seguinte, pelo ano seguinte. Havia um rei, e por isso as pessoas tinham futuro. Era um rei dotado de poderes assombrosos. Capaz de vencer qualquer inimigo com uma combinação de força e magia. Seu sangue era poderoso, carregava uma bênção, um traço arcano, algo que o tornava mais que um mero mortal. Escolheu como sua rainha a mais brava guerreira de todas as terras, e ambos tiveram muitos filhos, que herdaram a coragem e o poder de seus pais."

Na primeira, é recontada toda a história dos dois capítulos anteriores. Desnecessário e irreal.
Na segunda citação, além da cacofonia do parágrafo como um todo, é novamente feita a explanação de algo que poderia ser inserido de forma muito mais orgânica, mas o autor preferiu meter o infodump precedido de travessão e fazer um diálogo preguiçoso e, novamente, irreal.
A história de Ruff Ghanor, na minha opinião, não merece ser chamada de lenda.






sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Impressões: Gabriel, de Claudio Parreira



Após longo hiato, finalmente uma resenha. O livro é Gabriel, do autor Claudio Parreira.




Tendo como companheiros um ex-poeta bêbado e filosófico, uma mocinha nada virtuosa e centenas de retratos de Marilyn Monroe, o leitor descobrirá em Gabriel, romance de Claudio Parreira, que nem tudo é o que parece, que o Sagrado muitas vezes veste as calcinhas do Profano e que o pecado, nem sempre, conduz ao inferno.
2.011 anos depois da sua mais importante missão, o anjo Gabriel é mandado novamente à Terra pelo Supremo com mais uma incumbência.
Gabriel, porém, não é mais o mesmo. Os homens mudaram. Ao anjo não interessa mais as coisas do Céu, e a Terra com a qual se depara parece ter sido abandonada definitivamente por Deus.
Dividido entre a fé e a indignação, o desejo e a raiva, Gabriel vaga por uma cidade sombria e em constante mutação, experimentando — e também curtindo — os absurdos da modernidade.


Aqui é bom dar uma ideia geral do plot, que na sinopse não chegou a ser explicado: Deus resolve mandar Jesus novamente ao mundo dos homens e precisa que Gabriel vá fazer a anunciação à Maria, uma prostituta de gênio forte e vivência urbana muito grande, escolhida pelo Supremo para a maternidade. Num cenário tão avesso à missão, Gabriel passa por transformações e a simples tarefa se desenrola em uma trama muito inesperada.

A narrativa é cômica, narrada em terceira pessoa e com palavreado leve, fácil de acompanhar e que proporciona a rápida passagem de páginas. Por ser uma fantasia urbana, o estilo casa bem os trejeitos brasileiros de agir, falar e pensar das personagens (divinas ou humanas) com o cenário apresentado para a trama: uma cidade sem nome, mas cujos locais podem ser facilmente identificados por qualquer um (igreja católica, apartamento baixa renda, clínica de reabilitação, etc). A melhor parte, no entanto, está nos diálogos, é na dinâmica das conversas que achei os momentos mais engraçados da trama, e inclui-se aí os monólogos mentais de Gabriel. Um trabalho sensacional de caracterização e humor ácido.

Cada personagem é apresentado com descrições físicas precisas, mas antes de chegar no meio do livro é perceptível que elas nem se fazem necessárias para o entendimento, de tão diferentes e marcantes que são as ações e personalidades. Assim, as descrições servem mais como referências para que o leitor imagine as figuras a partir de alguém conhecido (e acredite, por mais bizarros que os personagens sejam, sempre dá para atrelar eles à alguém do dia-a-dia). O fato de serem poucos personagens é um ponto a favor nesse sentido; Gabriel, Aldo, Maria, Embaixador e os poucos mais que fazem a história são suficientes para segurar a atenção do leitor e tirar riso de diversas maneiras.

As descrições são vagas e focam em elementos soltos de cenário ou vestuário. No caso das personagens a ausência de detalhes se compensa pela interação, mas na parte do ambiente há um extremo espaço vazio que precisa ser imaginado pelo leitor ou ficará vazio mesmo. Enquanto lia, não extrapolava nada do texto, e ao terminar fiquei com uma impressão bem peculiar sobre a obra. Da mesma forma que há livros fáceis de associar à mídia do cinema, a falta de cenários detalhados (e próprio teor da trama) me fizeram crer que Gabriel seria magistralmente bem adaptado para uma peça teatral.


O que gostei
-Personagens psicologicamente bem definidos, e sempre peculiares
-Linguagem simples, fácil de prender o leitor

O que não gostei
-Supremo e Vermelho são duas grandes decepções

Considerações finais
Gabriel é um livro que confirma o talento de Claudio Parreira, seu tom cômico e incrível trabalho de construção de personagens. A trama não tem pretensões grandiosas, e entretém com facilidade o leitor, apresentando um tema, que a princípio pode parecer sério, sem nenhum tipo de delicadeza; um livro escrachado e que não se leva a sério desde a primeira frase.






segunda-feira, 27 de julho de 2015

Impressões: Ana Lúcia Merege (2)


Continuando a INICIATIVA ATHELGARD, apresento aqui minhas impressões sobre cinco contos da Ana Lúcia Merege, todos pertencentes ao universo ficcional criado pela autora. Outros posts tratando de obras correlatas são: Impressões: Ana Lúcia Merege e Impressões:O castelo das águias.
Vamos lá!



A voz do sangue é mais um conto que se passa em Athelgard, universo mágico criado pela autora e relata a chegada de Maxim a Brandannen. Ele, um representante da Ordem Mística da Rosa, é recebido na cidadezinha decadente a chamado do Preste Ivan e, tão logo se apresenta, percebe que passou de caçador a caça quando é rendido pela lei que o ditador vampírico impõe aos habitantes. Para mim, a natureza vampírica apresentada na história já é uma novidade enriquecedora ao cenário, coisa que não tinha visto ainda em outras obras de Athelgard; até então já tinha me emocionado lendo histórias com magos, poções, telecinésia, saltimbancos... Ana Lúcia Merege sabe mesmo como montar um mundo diverso e separar cada uma das partes de modo coeso! A ambientação é maravilhosa, consegue dar o tom mais adulto à narrativa e não se perde na quebra de linearidade do enredo, o que garante mais um ponto positivo à escrita. Os personagens são apresentados de maneira coerente e com a quantidade suficiente de detalhes para criar familiaridade ao mesmo tempo que apenas insinua uma característica sobre um cidadão que será pivô do plot twist. O desfecho é criativo e (pelo que vim a saber depois pela internet) vai se desdobrar no segundo romance da saga principal da autora. Eu não vejo a hora de ler esse próximo volume e descobrir o que de vampírico vem pela frente no mundo fantástico de Athelgard.



O fogo interior se passa nas intermediações do Castelo das Águias e os personagens principais são aprendizes, mas a história conta com a aparição de alguns mestres. Razek, um aprendiz meio-elfo cheio de inseguranças e com gênio forte, precisa lidar com seu descontrole nas aulas - especialmente quando a meio-elfa Tarja está por perto. A história é trivial, e a beleza fica por conta da escrita da autora, cujo estilo é conciso e exato na escolha de palavras e montagem de frases. Confesso que mesmo assim me vi empolgado com a trama, lá pela segunda metade do conto, e isso se deve à leitura prévia do conto A encruzilhada. É possível fazer um paralelo bem claro entre os protagonistas dos dois contos, o que gera uma percepção de crescimento em Kieran e dá uma sensação maior de familiaridade com ele e com Athelgard como um todo. Recomendo que leiam A encruzilhada antes, para receberem no fim do conto a mesma descarga emocional que recebi.



Um estranho equinócio segue o fim do primeiro romance, O castelo das águias, e é narrado em primeira pessoa pelo personagem Urien, um dos mestres do castelo. É interessante frisar que, apesar de sermos apresentados a Urien e suas funções, muita coisa sobre ele só é mencionada por alto, deixando um mistério sobre seu passado para ser esclarecido em outras obras. A trama do conto é de certa forma detetivesca, muito embora não se instaure realmente uma atmosfera de tensão. Na verdade, o clima do conto é bem cotidiano e a personalidade "vida mansa" de Urien ajuda a apaziguar a sensação de perigo que a tentativa de assassinato que ocorre na história normalmente forneceria. A escrita da autora se mantém excelente, isso pode ser notado na construção de Urien, seus trejeitos e modo de pensar. Este conto (ou Urien) provavelmente é o que mais evidencia a postura pacifista da autora, mais até que a personalidade de Anna (protagonista do primeiro romance), já que no caso dela há ligação forte e relação causal entre sua visão de mundo e sua origem "tribal".
O conto possui uns erros de digitação.



Em nome de Thonarr é o melhor conto da autora no mundo de Athelgard. A história se passa antes do primeiro romance e conta a trajetória de Padraig, um robusto menino humano, de ajudante no restaurante da mãe a aprendiz de mago no Castelo das Águias. O garoto de 12 anos é devoto a um herói da igreja do deus único, mas demonstrou ter dons para a magia, atraindo a atenção dos mestres e fazendo com que o caminho futuro de Padraig fosse o conflito principal, debatido entre os professores de magia e a mãe, dona do restaurante já mencionado, ela também uma mulher fiel ao deus único. A escrita é sublime, e o aspecto psicológico é um dos mais explorados - nos personagens em geral, mas principalmente mostrando a visão de uma criança que é o centro da discussão. A multiplicidade de posicionamentos sobre a dicotomia igreja-paganismo apresentados por personagens condizentes é o mais excitante do conto, mas é a surpresa final que pode-se chamar de cereja do bolo, dando fim à disputa não com um lado vencedor e outro perdedor, mas com uma resposta convergente. É por histórias deste calibre que afirmo que Ana Lúcia Merege é a melhor autora da literatura fantástica brasileira.



O tesouro dos mares gelados é uma novela com enredo sólido e simples, uma aventura viking em busca de um recurso para curar a doença de um velho patriarca, mas principalmente decidir qual dentre dois irmãos irá sucedê-lo como líder. O papel do conto, numa visão macro da série literária, é mais de explorar novas áreas de Athelgard e aprofundar a personalidade de Thorold e mais alguns que podem aparecer em outros volumes, pois as ramificações apresentadas na trama (apresentação da pirataria e de alguns grupos élficos citados, bem como o surgimento de um dragão) são sumariamente deixados em aberto, com o roteiro seguindo pela aventura principal até o desfecho da disputa entre os irmãos herdeiros. A escrita é boa como de costume e a história é um bom passatempo para os que já conhecem algo de Athelgard, mas não é muito conclusiva para marinheiros de primeira viagem.






domingo, 12 de julho de 2015

Impressões: Alameda dos pesadelos, de Karen Alvares


O livro da resenha de hoje é o romance de estreia de uma contista de produtividade hercúlea. Vamos à sinopse e minha opinião:



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Vívian era apenas uma mulher solitária, com uma vida normal, presa em sua rotina sem graça, até a noite em que presencia um acidente. A partir daí seu pesadelo começa; ela passa a ter visões de um homem que conheceu no passado e desejava nunca mais encontrar. E o pior: ele quer vingança.
Até que ponto um pesadelo é fruto da imaginação? Vívian descobre que o limite entre a alucinação e a realidade é tão pequeno que a loucura está a apenas um passo de distância e o pesadelo pode estar escondido na nossa mente, como um monstro à espreita, esperando sua chance de despertar. E para escapar do seu horror particular, Vívian precisará entender quais foram seus erros. E finalmente aceitar a própria culpa.


O livro é narrado em primeira pessoa e no tempo passado, nos dando a visão de Vívian sobre a vida (que não é nem um pouco fácil) e os personagens que aparecem na história. Estes são pouquíssimos, mas densamente desenvolvidos pelos diálogos construídos de maneira natural e pelas percepções da protagonista, sendo os mais presentes o menino Lucas, Gabriel e Caetano. Com eles viajamos na trama não linear e bem amarrada que até a metade do livro é bastante cotidiana, mas sem perder o clima de suspense característico das obras da autora. A história se passa em São Paulo, mas não há indicações de localização para classificar a história como regional - algo que tem sido muito explorado por autores nacionais contemporâneos do mesmo gênero literário - levando em conta que estou excluindo tempo chuvoso e trânsito lento como particularidades de São Paulo, mas isso não dificulta a imersão do leitor, pelo contrário, até facilita, já que qualquer leitor urbano pode se colocar nos eventos iniciais da história. Menções a músicas e cantores de conhecimento geral também auxiliam no reforço da ambientação da história.

A escrita é atual, com estruturação bem feita e que garante, pela simplicidade, a fluidez do texto. As páginas voam com a narrativa ágil ditada pela voz coloquial de Vívian e pelos diálogos quase sempre curtos e bastante verossímeis, respeitando personalidade, idade e maturidade de cada um. Uma ou outra metáfora chegou a me incomodar, entretanto, por estar deslocada com o resto da cena. Cabe um alerta sobre isso: assim que iniciei a leitura, na primeira página, me deparei com uma metáfora totalmente sem sentido, infantil e amadora, mas continuei lendo por conhecer o talento da autora e da segunda página em diante não tive outra decepção do tipo; na verdade, quando cheguei no meio do livro descobri, pelos caminhos que o enredo tinha tomado, que a metáfora inicial não só se encaixava na história como é de um brilhantismo ímpar, denotando GENIALIDADE na sua implementação. Ao fim do livro, existe um parágrafo que repete a metáfora e a explica, provavelmente para assegurar que seu significado não passe despercebido, mas sinceramente achei desnecessário, uma vez que a vigilância do leitor às nuances do texto já é suficiente para a percepção da importância da metáfora no contexto geral; explicar ao fim do livro só retira o fator de recompensa aos mais atentos.

Para fechar meu comentário, fica a observação: Alameda dos pesadelos é um livro espírita. Não acho que seja correto chegar ao ponto de taxá-lo como romance gospel/religioso, pois a religiosidade no livro não chega a suplantar as diretrizes narrativas, mas dizer que é uma fantasia urbana com fantasmas também não faz jus à obra. Acho importante deixar este aviso pois há um público muito vasto que pode se contentar sobremaneira com a obra, mas que pode passar batido por não identificar esta nuance que não é representada na capa ou na sinopse (olhando nas categorias da loja da amazon, percebi que sequer o livro está especificado como, sendo restrito à categoria de horror e ficção).

O que gostei:
- Narrativa fluída, com enredo bem estruturado e diálogos convincentes
- Ambientação simples, de fácil imersão
- Várias surpresas na trama

O que não gostei:
- Algumas poucas metáforas esquisitas espalhadas pelo livro
- Vívian é excelente quando decidida, por medo, raiva, coragem ou o que quer que seja, mas os momentos de indecisão dela são entediantes após a quarta crise de incredulidade. A trama às vezes até para de andar porque ela se nega a ver o que o leitor já se deu conta (e/ou já foi explicado por personagens ou situações) várias páginas antes.

Considerações finais:
Não seria justo dizer que Alameda dos Pesadelos é o melhor trabalho de Karen Alvares sem antes revisitar o enorme acervo de contos da autora, mas com certeza está entre os melhores, recomendo a leitura a qualquer pessoa. Cabe um elogio aqui ao belíssimo trabalho da editora também, fiquei impressionado com o cuidado na parte editorial.




quinta-feira, 2 de julho de 2015

Abandonei: Guerra Justa, de Carlos Orsi


Só dando update rápido: Mais uma FC que eu abandono, tá foda continuar dando chance para este gênero.
Do pouco que li, comento: a linguagem é (muito) densa, e a escrita visivelmente bem trabalhada. O que parece que vai ser muito complexo e trabalhoso de acompanhar se transforma em uma narrativa totalmente plot driven após as primeiras páginas, dando agilidade à leitura. O que me afastou foi a inserção de muitas traquitanas tecnológicas a cada cena e, para ser sincero, também não curti a maneira que a crítica à religião foi feita. Com tanta coisa atual e relevante a se condenar nas instituições religiosas, o autor preferiu usar o clichê da entidade suprema de controle ditatorial que oprime a população mundial. Há também logo no começo uma descrição desastrosa da destruição de uma estrutura em que, em um parágrafo, o narrador descreve para o mesmo objeto uma fratura característica de material dúctil e frágil. Sim, é algo bem específico e eu poderia deixar passar, considerando como licença poética, mas como é uma ficção científica, preferi deixar meu dedo de engenheiro cutucar o erro. A leitura é fácil e descompromissada, e não era isso que eu estava procurando quando baixei o livro na amazon.



sexta-feira, 19 de junho de 2015

O Valor dos Inúteis



Por coincidência ou não, as minhas duas últimas leituras (são os livros das duas últimas resenhas, 'O castelo das águias' e 'O idiota') refletiram bastante em pensamentos que venho tendo há uns bons dois anos, e ambos me incentivam a seguir a minha visão inicial sobre um determinado assunto: personagens. No meu comentário sobre OCDA, apontei a quantidade de personagens e a dificuldade de me situar em meio a tantos que não se relacionavam diretamente com a trama - apesar de achar o modelo de construção impecável, sob a perspectiva de criador. Tanto é que eu mesmo fiz a mesma coisa em 'O homem sem signo'; não é difícil ver leitores que acharam complicada a trama abarrotada de gente, ou até os chamando de inúteis - e no início eu ficava tentado a argumentar com os leitores, tentando mostrar a função dos tais personagens no livro, ainda que o papel deles fosse mínimo no enredo principal. 


De fato, esta percepção me deixava tão incomodado, na época, que o livro seguinte, 'A pedra celestial', foi montado de maneira oposta. A ideia geradora da sequência já tinha como base ser uma obra mais voltada para o gosto do público leitor de fantasia brasileiro, e cada criação nova era aplicada no roteiro de maneira a atender as demandas desta classe demográfica, então a decisão de retirar o contingente caiu como uma luva. Como autor independente, e pela proposta que tive na minha inserção no mundo da escrita de fantasia, também era válido transformar a minha escrita, pois este é o objetivo principal da 'Trilogia A lança dourada', exercitar minha escrita de formas variadas num contexto ficcional fantástico. E deu certo: APC é um livro muito mais elogiado, as leitoras, especialmente, demonstraram um apego com a história praticamente inédito, e aqui estou eu me questionando sobre o desenvolvimento do terceiro livro da saga.

O estilo de escrita do terceiro livro será uma combinação de elementos de OHSS e APC mais algumas coisinhas que aprendi com o feedback dos leitores dos dois livros. Uma das coisas é a criação de personagens, e no último livro seguirá o modelo do primeiro. É mais complicadinho, pode gerar revoltas, mas é o que eu considero correto. Não quero menosprezar a opinião de quem leu e amou APC, pelo contrário, não há presente melhor para um escritor que ver seu texto apreciado, mas assim é a arte, precisa ser genuína. O terceiro livro vem aí, e vai vir muita gente com ele!


Antes de ir, acho de bom tom deixar aqui o trecho de 'O idiota' que faz menção à questão de função dos personagens na narrativa, tendo de certa forma uma mensagem consonante com a estrutura encontrada em OHSS e OCDA. Acho que é mais recomendável fazer isso que indicar a leitura do livro inteiro, especialmente após eu tê-lo criticado tanto (mas Dostoiévski continua sendo amor, SEMPRE!). Esta passagem se encontra no primeiro capítulo da quarta parte do livro.


"Todavia a pergunta fica de pé: que fará um autor com gente comum, absolutamente “comum”, e como há de colocá-la diante do leitor tornando-a interessante? É de todo impossível deixá-la fora da ficção, pois essa gente do lugar-comum é, a todo momento, o principal e indispensável anel da cadeia dos negócios humanos. Se os deixarmos de fora perdemos toda a verossimilhança com a realidade. Encher uma novela completamente só com tipos, ou melhor, querer torná-la interessante mediante apenas caracteres estranhos e incríveis será querer torná-la irreal e até mesmo desinteressante. A nosso ver, um escritor deve procurar a torto e a direito enredos interessantes e instrutivos mesmo entre gente vulgar; Quando, por exemplo, a natureza mesma de certas pessoas vulgares reside justamente em sua perpétua e invariável vulgaridade, ou melhor ainda, quando, apesar de todos os mais estrênuos esforços para fugir à órbita da mesmice e da rotina, essa gente acaba por se sentir invariavelmente ligada para sempre a essa mesma rotina, então tal gente adquire um caráter sui generis, todo seu, o caráter da vulgaridade, desejosa acima de tudo de ser independente e original sem a menor possibilidade de o conseguir.
A essa classe de gente “vulgar” ou “comum” pertencem certos personagens da minha narrativa que até aqui, devo confessar, foram insuficientemente explicados ao leitor".



segunda-feira, 8 de junho de 2015

Impressões: O castelo das águias, de Ana Lúcia Merege


Fechando a minha lista de leitura do primeiro semestre, O castelo das águias, da autora Ana Lúcia Merege, a mesma que cansei de elogiar nos comentários sobre contos da Draco e Trasgo. Finalmente passei para a seção de romances da autora, que já tem um bom número de publicações, mas não precisei deixar o mundo de Athelgard, cenário desta e das demais histórias resenhadas aqui. Antes da sinopse e da resenha, quero frisar uma coisa: não costumo comentar sobre pesquisa e referências nas obras, e não será diferente aqui neste post, porém, para quem gosta de se aprofundar nas leituras favoritas, Ana Lúcia Merege oferece um oceano de informações para seus leitores no BLOG DO LIVRO.
Então, finalmente, vamos à minha análise:


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O Castelo das Águias, romance fantástico de Ana Lúcia Merege, é um lugar especial. Localizado nas Terras Férteis de Athelgard, região habitada por homens e elfos, abriga uma surpreendente Escola de Magia, onde os aprendizes devem se iniciar nas artes dos bardos e dos saltimbancos antes de qualquer encanto ou ritual.
Apesar de sua juventude, Anna de Bryke aceita o desafio de se tornar a nova Mestra de Sagas do Castelo. Aprende os princípios da Magia da Forma e do Pensamento e tem a oportunidade de conhecer pessoas como o idealizador da Escola, Mestre Camdell; Urien, o professor de Música; Lara, uma maga frágil e enigmática, e o austero Kieran de Scyllix, o guardião das águias que mantêm um forte elo místico com os moradores do Castelo.
Enquanto se habitua à nova vida e descobre em Kieran um poço de sentimentos confusos e turbulentos, uma exigência do Conselho de Guerra das Terras Férteis põe em risco a vida e a liberdade das águias. Com o apoio de Kieran, Anna lutará para preservá-las, desvendando uma trama de conspiração e segredos que envolvem importantes magos do Castelo.

Sim, o cenário é uma escola de magia, mas qualquer sentimento que possa ser evocado a partir desta informação deve ser abrandado e posto de lado, porque a história de Anna é completamente diferente da do bruxinho inglês que todos conhecem, e ainda bem! Se há duas coisas que eu preciso observar logo de cara sobre OCDA é a originalidade e principalmente a consciência da autora no que se pôs a fazer. A história não retrata um protagonista "escolhido" por forças superiores, muito pelo contrário, conta um enredo completamente natural, se valendo para isso de um encadeamento de cenas e situações corriqueiras, definitivamente um  slice of life, que ultimamente só vejo existir com força como gênero de animação japonesa. Assim que me dei conta deste viés, eu já estava convencido da ótima qualidade do texto, mas passei a taxá-lo de não-comercial. Mas, à medida que a história fluía, percebi o quão eu estava errado, por conta de pura alienação. A história é tão diversa dos demais romances de fantasia que vemos por aí, que acabei julgando mal, e mais para frente na minha leitura me dei conta de que a trama de OCDA vai além de qualquer alcance de romance de fantasia, pois gera identificação com o muito mais amplo grupo leitor de ficção realista. Há, sim, magia na história, os leitores de fantasia não precisam se preocupar, mas a autora extrapola as convenções e torna Athelgard um lugar comum também para o público não acostumado, pela utilização mais naturalista dos conceitos mágicos, assemelhando-os bastante com o que existe na vida real: simpatias, superstições, fé e expressão emocional pela arte. Esqueça poderes mágicos e feitiçaria, a magia de Athelgard é uma hipérbole da magia do mundo real! Esse fator, sozinho, me conquistou por completo, é um recurso muito raro hoje em dia, mas que aprovo como escritor e me senti maravilhado de encontrar num texto da Ana Lúcia, a qual já vem sendo alvo de meus elogios há algumas resenhas.

A escrita da autora é simples e flui de uma maneira excepcional, o que eu já vinha reparando pelos contos que li, mas vale o lembrete de que o romance - em especial um de fantasia - permite a prolixidade, principalmente nas descrições. Apesar de me identificar com o estilo, a demanda do leitor típico de fantasia é clara quanto a isso, e às vezes rodeios que elaboram são mais elogiados que passagens curtas de construção mais rica. E esse último não falta na obra, a autora nunca decepciona em usar de vocabulário e construção frasal permeados de relevo, que exprimem com assertividade as passagens narradas. Sendo um livro direcionado para o público juvenil, deixando de segmentar o leitor como acostumado à fantasia, a linguagem utilizada é ideal.

Agora os altos e baixos mais discrepantes no livro: as personagens. São muitas, variadas e carregam cada uma seu nome e função, mesmo que sua participação na trama seja irrisória. Por um lado, isto agrega vida ao mundo imaginário e dá a sensação de inteireza além do que é mostrado no enredo principal; por outro, fica muito vago ter tantos personagens que não são marcantes e/ou não possuem tanta relevância na trama. Novamente, eu me identifiquei com o tipo de construção, porém a dificuldade existia, isso não posso negar. Confirmando a impressão que tive anteriormente lendo contos, a autora realmente gosta de apresentar personagens em grupo, e isso trouxe alguns problemas na definição das personagens. Como as descrições não são profundas, a tendência é não dar muita atenção quando um grupo de alunos, por exemplo, é apresentado, só que mais para frente o leitor descobre que um ou dois daqueles são mais importantes para a trama, enquanto os outros não, mas já é tarde para lembrar das características de cada um, faltou um reforço na caracterização. A minha solução foi a mesma que usei ao ler O Nevoeiro (Stephen King) - pois ele só usou adultos caucasianos de meia idade no seu romance, impossibilitando a memorização das personagens - eu memorizei as personagens principais (Anna, Kieran e mais alguns), e as secundárias e terciárias agrupei como burocratas/alunos/magos, e apenas incutia a imagem de cada categoria a uma personagem quando aparecia, sem realmente visualizar mentalmente os indivíduos com suas características próprias. A quantidade de pessoas no livro é ótima, a complementação de mundo que proporcionam é mais importante que a participação reduzida (se não fosse, tais personagens seriam inúteis), porém faltou algum tipo de reforço para ajudar a fixar cada pessoa a uma figura correspondente.

Apontadas as observações acima, fica registrado que O castelo das águias falou comigo de uma maneira como pouquíssimos livros fizeram; se bem me lembro, apenas Notas do Subsolo, HP e o Cálice de fogo e alguns contos de HP Lovecraft me afetaram de forma semelhante. É possível que seja o livro que li mais rápido em toda a vida, e como escritor também me identifiquei bastante com a maneira da Ana Lúcia Merege se expressar pelas letras. Sem ter muito mais a acrescentar, deixo abaixo os pontos resumidos e minhas considerações finais.

O que gostei:
- Toda a estrutura macro da história, sendo um slice of life no meio de tantas publicações de fantasia recauchutada
- A escrita é fantástica
- Anna, construída de maneira magnífica pela narração em primeira pessoa, com conflitos interessantes e coerentes
- Construção geográfica de Athelgard
- Interação dos grupos sociais; mesmo diferentes entre si, a caracterização foi realista e sem caricaturas
- O clima de conto de fadas, que torna o castelo um lugar seguro para o leitor como é para Anna

O que não gostei:
- Dificuldade para memorizar personagens importantes

Considerações finais:
O castelo das águias é um livro que começa de uma maneira simples, e assim segue até o fim; como na vida, são as pequenas coisas que nos cativam e nos fazem pegar de novo o livro para ver o que vem adiante na vida da Mestra de Sagas, e quanto mais o leitor se impressiona com a narração da protagonista, mais ele se dá conta que, apesar do que diz a história, a verdadeira Mestra de Sagas não é Anna de Bryke, é a Ana Lúcia Merege.







sexta-feira, 5 de junho de 2015

Próximas leituras: segundo semestre 2015


Antes da lista do segundo semestre, vejamos como me saí com a lista dos primeiros seis meses:





É, parece que não rendeu muito, apenas 6/14. Mas para ser justo, vamos lembrar que li outras coisas que não estão na lista e até justificam meu fracasso de meta: 

3 contos do Eric Novello, 4 contos e 1 romance da Ana Lúcia Merege (não postei comentário sobre um dos contos nem do romance ainda pois terminei ontem), 1 conto da Giulia Moon, 4 contos do Cirilo Lemos, 1 conto do Antônio M C Costa (li um terço e abandonei), 1 conto da Celly Nascimento, 1 conto de Machado de Assis, 1 HQ do MSP. UFA!!! Coisa demais!


A seleção anterior continua valendo, e posso pegar qualquer um deles para ler no segundo semestre, mas a lista própria é a seguinte:




Sim, só ficcão fantástica. =T






segunda-feira, 1 de junho de 2015

Impressões: O idiota, de Fiódor Dostoiévski


Após dois anos e meio, finalmente concluí a leitura de O Idiota, definitivamente o livro mais controverso no meu kindle. Vamos à sinopse + resenha.


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O Idiota - Dostoiévski é considerado o maior escritor russo de seu tempo. É autor de várias obras-primas. O Idiota começou a ser redigido em 14 de setembro 1867 em Genebra, Suiça, e foi concluído a 25 de janeiro de 1868, em Florença, Itália. A obra teve uma elaboração difícil e torturada. Em meio às piores dificuldades, foi escrita e reescrita muitas vezes até a redação definitiva. A obra foi inspirada na figura de Dom Quixote, de Cervantes. O Idiota é, talvez, o romance mais típico de Dostoiévski, provocou perplexidade nos meios intelectuais da época. a obra foi elogiada por Tolstoi, que a achou de grande força dramática e beleza literária.


O desejo de ler O Idiota e qualquer outra obra de Dostoiévski é compreensível, dado o meu arrebatamento após a leitura de Notas do Subsolo, do mesmo autor, que é meu livro favorito (o primeiro lugar, o inalcançável, aquele livro que mudou minha visão sobre leitura). E muito do que se vê em O idiota é o mesmo que encontrei no referido livro: um enorme trabalho de psicologia nas personagens, de forma intensa e reveladora, alinhado a discussões filosóficas profundas e reflexivas, ainda que essa conduta exija, por consequência inevitável, um esforço menor nos aspectos de trama. E esse não é o problema! Diariamente saem milhares de livros novos, bem escritos, pautados em técnicas conhecidas e fórmulas comprovadas; não é isso que eu buscava em O idiota. Pouco me importa pontos de virada, ritmo, riqueza de descrições. Eu quero CONFLITOS! E é o que mais há no livro, e mesmo assim eu abandonei a leitura duas vezes, dando um tempo de meses entre elas, para enfim pegar uma terceira e finalizar. Eu achei o que queria, mas porque não foi tão proveitoso? A resposta eu consegui achar, e só posso dizer que é o tamanho do livro.

Notas do subsolo é um livro curto; agressivo, contundente. Maravilhoso, mas curto. O idiota, pelo contrário, é um calhamaço disfarçado pela falsa espessura do kindle. As divagações, a narrativa, a eloquência de cada personagem, tudo é exposto com o brilhantismo esperado do russo, mas as doses são cavalares, e irremediavelmente vem junto o tédio, o cansaço, a vontade de apressar a leitura. Some-se isso aos nomes russos, complicados por natureza para um brasileiro - além do fato de Dostoiévski empregar sobrenomes, apelidos e abreviações de nomes, tantos que só na terceira leitura consegui memorizar todos - e uma trama praticamente inexistente (sendo, com efeito, apenas uma sucessão de cenas burguesas e conversas grupais), eu não tenho outra opção a não ser reconhecer que meu autor favorito, mesmo brilhante, consegue ser enfadonho e nem um pouco amigável.

Sobre a trama, não há muito o que se dizer, pois ela é mínima e também o que menos importa, de um ponto de vista macro. Tanto é que nem a sinopse do livro se dignou a falar algo sobre, acho que isso encerra bem este ponto e me leva aos quesitos finais do meu comentário sobre o livro.

O que gostei
- O estilo de escrita do autor já é um diferencial e um convite ao livro
- A narrativa é assertiva em quase sempre, deixando poucas chances de haver confusão
- O príncipe, como personagem e como figura de um ideal
- As discussões sobre política, fé, moralidade e relações humanas

O que não gostei
- A trama que vai de nada a lugar nenhum
- Os cenários são sete, no máximo
- Embora inevitável para o nível de detalhes apresentado, a prolixidade é um agravante ruim

Considerações finais
Com uma importância ímpar na carreira do autor, na minha visão o romance custou muito para entregar o que deveria, e é, numa recomendação bem otimista, um esforço para poucos. Mas, mesmo com todos os aspectos ruins, ele ainda traz em si boas discussões, magistralmente apresentadas, inclusive. É um livro que vale a leitura de um fã determinado, mas não fará ninguém se apaixonar arrebatadoramente pelo estilo do autor.





Impressões: Os últimos casos de Miss Marple, de Agatha Christe


Pela primeira vez li um livro da Agatha Christie, e posso dizer que minhas expectativas foram alcançadas. Li o livro um pouco antes do Mês dos contistas brasileiros, e para entrar no ritmo, preferi usar um livro de contos para conhecer a autora. E não sendo um romance, vou me valer de breves comentários, sem me ater a uma avaliação mais detalhada, como venho fazendo com contos.

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Todos os contos usam de narrador impessoal, se me lembro bem, e não há grandes discrepâncias na escrita de um para o outro, de forma que é melhor agrupar contos que merecem os mesmos comentários, já que não vou destrinchar a história de nenhum deles:

Uma piada incomum
O caso da fita métrica
O caso da zeladora
O caso da criada perfeita
Miss Marple conta uma história

Esses cinco contos acho apropriado comentar conjuntamente, pois tratam-se basicamente da mesma premissa: um caso criminal ou um mistério, aparentemente indecifrável ou de solução evidente. Paradoxal? Talvez, mas aí é que entra a genialidade de Miss Marple, a famosa senhora de percepção aguçada que empresta nome ao título do livro. Sempre aparecendo como uma velha senhora indefesa, amigável e insistentemente curiosa, a velhinha não se cansa em surpreender as personagens e o leitor com seu poder investigativo, do tipo que marcou uma era. É claro que hoje as histórias policiais são muito mais esmiuçadas, visando a participação do leitor no descobrimento da solução, mas Miss Marple, como Holmes, fazem parte de uma leva diferente de detetives, de uma estirpe que exala perspicácia por onde passa, e o leitor precisa aprender o seu lugar de expectador, e esperar pela "mágica" proveniente do raciocínio lógico. As histórias seguem este mesmo padrão, com uma escrita fluída e fácil de entender, para qualquer tipo de leitor.


A boneca da modista
Através de um espelho sombrio

Estes dois contos eu preferi separar dos demais, justamente por não conter a presença de Miss Marple, mas principalmente por possuírem um tom sobrenatural na narrativa. Definitivamente foi uma surpresa encontrá-los na coletânea, mas de modo algum decepcionante; pelo contrário, mostrou em um só título a versatilidade da autora, que conseguiu manter seu estilo agradável de construir um mistério - e conservando a solução sendo extraordinária demais, ao ponto de extrapolar as suposições do leitor - em tramas de suspense fantástico.


A extravagância de Greenshaw

Por fim, destaco este conto dos demais, que podia muito bem estar agrupado no primeiro, mas escolhi separar dos demais apenas por ser meu preferido. Se não me engano é o conto mais longo e com maior desenvolvimento, e provavelmente seria um que eu colocaria numa lista de releitura, mas acho que a obra de Agatha Christie é extensa demais para eu me ater a releituras pelo menos antes de conferir outras histórias.






quarta-feira, 6 de maio de 2015

Impressões: Os doze guardiões da luz, de Luiz Henrique Batista


Abril foi o mês da compensação preguiçosa. Após uma leva de livros gigantesca em Março, só consegui ler um livro e mais alguns trechos de outro, mas apesar de solitária, a leitura foi extremamente proveitosa. Adquiri o livro numa troca de exemplares com o Luiz Henrique Batista no início do ano, e ele só veio reforçar a ótima onda de nacionais que está inundando o blog. Sem mais demora, vamos à sinopse e minha opinião:


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Ambientado num mundo de fantasia, Os Doze Guardiões da Luz narra as histórias de heróis imortais que encarnam os doze signos do Zodíaco. Séculos após a grande guerra, que expulsou a Escuridão dos reinos do oeste, o povo e os heróis parecem ter se esquecido da ameaça que reside lá fora, além da fronteira das terras da Luz com os países da neblina. Alheios ao alcance dos tentáculos do inimigo, os Guardiões são pegos de surpresa quando a ameaça vem não de fora, mas de dentro do reino, justamente daqueles em quem mais confiavam: eles próprios.


O livro conta a história dos doze personagens principais, com um foco ligeiramente maior em Áries, o Senhor do Fogo, usando uma escrita bem veloz e estruturada, dando fluidez à leitura de uma forma mais contundente que a maioria dos livros que eu já li - inclusive, os capítulos curtos tem grande influência nisto, as páginas realmente passavam voando. A construção de personagens é bem feita, e a personalidade de cada um é bastante definida, quase a um nível caricato, o que auxiliou na memorização de cada um - algo que inicialmente pode parecer um desafio para alguns, mas na verdade se mostra bem simples, principalmente quando se observa que os nomes dos principais personagens são os signos do zodíaco, os mesmos que todo mundo já está cansado de saber.

Acredito que posso enquadrar o livro como um YA, pois ele possui uma linguagem que não gera restrições de idade, mas no enredo há algumas cenas não apropriadas para crianças. Independente da faixa etária, o que não falta na história é emoção, de todos os tipos e intensidades, prendendo o leitor desde o primeiro capítulo. Esta carga dramática, entretanto, chegou a me causar incômodos: por ser tão presente e envolvente, acabou a causar algumas incoerências, como por exemplo 1) os seres das sombras, inicialmente apresentados como desprovidos de temores, constantemente se apavoram em combate contra os heróis, 2) Leão e Câncer, exaltados por seus poderes de combate, não fazem jus à fama, 3) o céu noturno sem luar também é comum, mesmo no início do livro as luas serem apresentadas como gigantescas e muito próximas e brilhantes, tal qual castelos criados por gigantes sendo habitados de maneira natural por humanos, 4) algumas repetições usadas como reforço, sejam reproduzindo as motivações de personagens ou com o narrador explicando o que as ações ou diálogos acabaram de mostrar.

Quanto a descrição, o texto se compatibiliza perfeitamente com o que eu busco, nada muito desgastante e milimetricamente exposto, mas descrito o suficiente para gerar uma imagem mental de personagem (uma vez ou outra surge uma figura de linguagem nessas descrições, psicológicas ou físicas, que parecem forçadas, no entanto) ou de cenário. O cenário, aliás, vale a menção pela complexidade; rico e variado - de certa forma até mais que o necessário para o que este primeiro livro apresenta - demonstra o grande esforço que o autor despendeu. A única coisa que me pareceu deslocada quanto a isso foi a menção a anjos no livro, uma vez que a criação de mundo é explicada, bem como as demais raças do mundo ficcional, e nenhuma delas faz sequer alusão a existência de seres angelicais. É só um detalhe, e pode ser explicado em livros futuros (ou não, e aí será como a menção a golfe que o Tolkien fez em O Hobbit).

O que gostei:
- Narrativa ágil e bem estruturada
- História envolvente, com transição de cenas veloz
- Personagens cativantes
- Descrições na medida certa
- Enredo emocionante

O que não gostei:
- Não possui índice
- A carga dramática precisou fazer uns sacrifícios para ser tão alta
- Faltou um tanto de originalidade

Considerações finais:
Os doze guardiões da luz é, de longe, o livro nacional de fantasia da minha estante que mais consegue aliar qualidade  de escrita com apelo comercial. Misturando ação, aventura e romance, Luiz Henrique Batista criou uma obra magnífica e ainda deixou as portas abertas para continuações que logo virão, segundo declarações do autor. Para quem conhece as fontes de inspiração usadas pelo autor, fica ainda mais prazeroso descobrir as várias referências, que vão de livros, mangás e filmes até - se eu deduzi corretamente - videogames.




sexta-feira, 27 de março de 2015

Impressões: últimos contos do mês de Março


Fechando a leva de contistas brasileiros, deixo abaixo meus comentários sobre quatro contos de diferentes autores. A experiência foi super válida, concretizei o objetivo principal, que era conhecer o trabalho de autores notórios através de leituras curtas, e voltei a consumir literatura brasileira, que nos últimos dois meses estava afastada do meu cotidiano (exceto por um conto de Machado de Assis). O mérito do projeto é ainda maior, pois agora tenho guardada uma lista com outros autores contemporâneos que não entraram na série de posts por questão de tempo ou por não terem contos entre suas obras, mas que serão lidos EM BREVE. Sem mais enrolação, vamos às impressões:



Eu, a sogra foi meu primeiro contato com o trabalho de Giulia Moon e foi uma delícia! Um conto carregado de comicidade muito bem dosada, com uma narrativa fluída em primeira pessoa e uma situação extremamente comum a qualquer pessoa que já passou um feriado reunido com a família. A mistura de magia e culinária é feita de maneira bastante natural, e a eventual retidão em acreditar numa magia tão cotidiana é dispersada pelo tom bem-humorado da história. O desfecho do problema é muito conveniente e apropriado ao estilo, e me deixou com uma estranha vontade de ver a história adaptada para a TV. Eu riria de novo, com certeza.



Por um punhado de almas é mais um conto de Cirilo S. Lemos, que teve seu post exclusivo aqui no blog há uns dias. Com um estilo diferenciado e uma voz narrativa já estabelecida, o autor não falha em entregar algo único, não importa quantas referências se escondam entre suas palavras. Particularmente, viajei entre Afro Samurai e o pistoleiro sem nome da Trilogia dos Dólares enquanto acompanhava a narrativa não linear do conto, não sem travar em algumas figuras de linguagem forçadas pelo caminho. Infelizmente, a narrativa fragmentada, aliada aos personagens sem construção profunda - embora sejam caracterizados fisicamente com descrições marcantes e bem pensadas - tornou a leitura desconexa, só fazendo sentido no final; ao terminar, senti uma verdadeira frustração. Com cenas bem montadas e apresentação de personagens diluída demais no enredo, muitas vezes um bom final é o bastante para redimir uma leitura arrastada. Neste conto, apenas explica a história, sem gerar muita satisfação.



O xenólogo de Sírius, novela de Antonio Luiz M. C. Costa chega representando a ficção científica na seleção, e, quase que perpetuando a minha relação problemática com o gênero, foi abandonado. A história trata da relação do povo de Sírius com outros povos de planetas diversos, - sejam eles desenvolvidos tecnologicamente ou não - que é basicamente uma situação de vigilância e monitoramento das espécies. A sinopse indica que há mais, porém o início do conto se encarrega de impedir o avanço de leitores não tão aficionados pelo gênero. O contar, e não mostrar - que é um estilo de escrita, e não um defeito de narrativa, como muitos na internet insistem em dizer - é absoluto, e associado à distância que é colocada entre as personagens e o leitor, quebra qualquer possibilidade inicial de identificação; a impressão que fica é de estar lendo um registro histórico muito longínquo. A falta de diferenciação de gênero, que serviria como recurso ortográfico para definir um aspecto cultural, se perde quando surgem outras palavras flexionadas pelo gênero, e a ideia se torna um mero enfeite mal aplicado. Por outro lado, a pesquisa científica é vasta e profunda, perceptível por menções que vão de conceitos evolutivos a posicionamento orbital; talvez, somado a referências interessantes a outras obras consagradas da FC, isto consiga empolgar os fãs mais apaixonados pela ciência e os encoraje a vencer o infodump, que acabou por me derrotar um pouco antes da metade do conto.



Thorn Punho de Ferro é um conto de Celly Nascimento e encerra o post (e o mês) com um ar fúnebre. A narrativa em terceira pessoa conta os últimos sonhos, pensamentos e devaneios de Thorn, um adolescente moribundo caído no meio de destroços de um campo de batalha. É incrível como em poucas páginas a autora criou um background tão amplo e crível de um mundo fictício. Os medos e esperanças perdidas do protagonista realmente convencem, apesar de alguma artificialidade na escrita. O estilo da autora é bom, vê-se que ela entende como descrever e narrar, mas peca na imaturidade, talvez. Advérbios e adjetivos lotam os parágrafos, muitas vezes não sendo precisos e tornando algumas passagens confusas ou mal aproveitadas. Frases de efeito, um dos recursos que mais odeio, também estão presentes e me decepcionaram um pouco, apesar de saber que é um artifício muito usado e bastante aceito por leitores de fantasia. Ademais, o texto é surpreendente para a estreia de uma autora, e com certeza define um potencial que merece ser observado no cenário nacional de fantasia.